Construção
Nas palavras daquele falecido rapper, "thank God for me"
Vou começar esta edição publicando um texto que está no meu rascunho desde mais ou menos agosto e que eu não consegui dar direção alguma, talvez porque algumas observações sejam só retalhos de pensamentos que se conectam a milhares de outros pensamentos, não obrigatoriamente chegando a uma conclusão.
Não sei o que estou dizendo.
Ao texto:
Uma robusta cusparada na testa
Eu nem lembro mais como o tema desta edição começou a se desenvolver. Nas minhas anotações tem desde um texto sobre feminismo da Anne Helen Petersen até o comentário do dono da papelaria do quarteirão, que sugeriu que eu contratasse um balconista homem para afastar da loja possíveis assaltantes e malucos de praça. *Suspiro*. Talvez, no fim, o tema da vez não tenha a ver com nada disso, mas foram os fios que desenrolaram a proverbial meada.
O negócio é que mais uma vez eu cuspi pra cima, e a baba consequentemente escorreu da minha testa. Essa cusparada, bastante robusta, veio com algumas reflexões na garupa. Chegaremos lá.
A julgar pelos meus textos antigos sobre amor, sexo, relacionamentos em geral, dá pra dizer que nem sempre nadei de braçada no assunto, e que muitas vezes busquei acompanhamento psicológico-terapêutico-mapa-astral-danças-circulares-etc. para me desenvolver melhor na questão. Foi o que me fez entrar no consultório da Flávia há sete anos e meio e bradar que não aguentava mais ser assim, bagunçada.
Agora a gente faz igual a autora Manu Dias e quebra o assunto de repente, insere um “anos mais tarde” na transição e chega no dia de hoje, provavelmente em setembro de 2025 — vamos torcer pra eu ter acabado essa edição.
Estou com 44 anos, moro há quase nove no interior de São Paulo, passei pela ducentésima mudança de carreira e pisei pela última vez no consultório da Flávia faz duas semanas. Fiquei emocionada ao notar os progressos feitos nesse período: me acertei com meus transtornos, tenho levado uma vida com mais rotina e cuidado, meus estresses têm nome e endereço — a maioria. Olho mais para as questões da minha idade, tenho mais certeza das minhas decisões e sei o que consigo e o que não consigo mais abraçar nesta vida.
Também estou em um relacionamento — rrrrasc — não-monogâmico — ptuuu.
Quem diria, logo eu, uma vez ofensivamente chamada de “a vanguardista do odiar”!
Não tem muito o que explicar: funcionou. Me pareceu adequado, trouxe paz para meus demônios. É o menor dos meus problemas. Melhor, é um não-problema, porque nenhum incômodo atual deriva dessa condição — mesmo que as dores do passado tentem vez ou outra emergir.
Fazia uma década e meia que eu não entrava em um relacionamento, assim, reconhecidamente, podendo dizer sem dúvidas que é um relacionamento amoroso entre duas pessoas cientes disso, que é algo que eu quero, que cabe na minha vida.
Conheci o Téo num app, trocamos telefone, esfriamos o papo, retomamos, ele apareceu na minha cidade num feriado e estamos juntos desde então. Ele vem, eu vou, vamos organizando. Ele tem a vida dele, com suas demandas e relacionamentos, eu tenho a minha; nos encontramos em um terreno comum que é a vontade de ficar junto, em nossa chacrinha com uma placa que diz If There’s a Will, There’s a Way na porteira.
Voltei a dizer “eu te amo” depois de quinze anos. A vida tá boa assim.
Viver continua me dando dores de cabeça, de variadas ordens. Talvez eu achasse que me relacionar de forma livre seria mais uma delas, mas aí veio a oportunidade de mergulhar os pés nessas águas e sentir que parece seguro. Costumo repetir que, até o presente momento, tá tudo ok.
E por estar em paz, é razoável olhar para comportamentos que cresceram com a gente sendo parte do zeitgeist e pensar que eles não fazem sentido. Por exemplo:
Você, amiga mulher cis hétero, já percebeu como a gente é criada pra ser INSUPORTÁVEL? Mocreia? Rádio-patroa?
Ciúme, no meu tempo, era “bonitinho”. Tinha música a dar com pau sobre o tema. Tinha frase cafona que dizia que esse “é o tempero da relação”. Era incentivado e até celebrado em diferentes dinâmicas. Quando minha irmã nasceu, senti o golpe a ponto de estacionar ao lado de quem cuidasse dela no momento para morder meu braço, em alusão ao hit do Ultraje a Rigor — cuja letra envelheceu como marmitex de feijão ao sol. “Ciúme é sinal de amor”. Hum.
Com essa aprovação toda do meio cultural, parecia adequado querer ter posse até da própria sombra enquanto cria inimizades a rodo por aí. Anormal era namorar gente que te deixava SER, esses seres iluminados insensíveis.
O rascunho acaba aí, imagino que eu quisesse chegar na percepção de que o ciúme já foi, para mim, uma condição sine qua non nos relacionamentos, que já me fez sofrer tanto e agir de formas que condeno, até que uma hora (e sete anos e meio de terapia) o sentimento perdeu força.
Digo que este ano me fez subir de fase, da administração de uma empresa à decisão de parar com a terapia cognitiva comportamental e estrear na análise lacaniana — coisa que jurei em 2006 nunca mais fazer. De não colocar mais as demandas dos outros à frente das minhas, e deixar bem claro como as coisas funcionam comigo. De criar tempo para me arrumar antes de sair para o trabalho, reconhecer a mulher que eu sou, falar em voz alta e sem modéstia o que considero minhas qualidades. De montar um escritório para trabalhar direito, de fazer cursos de coisas chatas e necessárias, de preencher tabelas enormes que me deixam vesga de cansaço e inflada de orgulho. De olhar para a minha equipe e reconhecer que elas são fenomenais e também reconhecer meu papel como gestora. De entrar em um relacionamento numa modalidade desconhecida, e me encaixar comodamente nela, quando até uns anos atrás eu me sentia completamente inapta a lidar com o amor. De ouvir dos outros “nunca te vi tão animada!”.
Depois de muito tempo me sentindo estagnada e voltando às mesmas lengalengas, sinto-me calibrada.
Téo e eu estamos repensando nossa relação, e até isso tem sido bom. Meu amor por ele só cresce, principalmente quando penso que, se não fosse ele, talvez eu levasse mais tempo para exercitar meus avanços. E por ser ele, obviamente.
Levei tempo escrevendo e editando a última newsletter do ano porque queria abrir meu coração e não meu ego. Trocando em miúdos, fui tão coitadinha pobrezinha bichinho de matar com pedra no passado que observar o que foi 2025 deu uma lufada de esperança. Em 2024, em um dos meus piores momentos, na porra do dia das mães, perguntei se minha genitora aceitaria melhor minha partida se eu estipulasse uma data. Hoje, repito que mal comecei. Só considero parar quando a única solução não for lá a mais correta.
Não sem antes considerar, vai.
O objetivo é não ser presa.
Obrigada por acompanhar a Auê e que 2026 seja ✨️S U B L I M E ✨️






Que delícia quando a vida vai bem.
que boas notícias 😍